segunda-feira, 20 de abril de 2009

Entre o gol e a casamata

Mazzaropi: ídolo gremista busca o mesmo sucesso que conquistou sob as traves como técnico


Geraldo Pereira de Matos Filho nasceu em 1953, no interior de Minas Gerais. O estilo caipira rendeu-lhe o apelido de Mazzaropi - ainda no início da carreira, no Vasco da Gama, em 1970 - alusão ao cineasta Amácio Mazzaropi, que interpretava Jeca Tatu, nos áureos tempos da película brasileira.

Quatro anos mais tarde assinaria o primeiro contrato profissional e conquistaria o primeiro título: o de campeão brasileiro (era reserva do argentino Andrada, famoso por ter sofrido o milésimo de Pelé). Pelo clube da cruz de malta faturaria ainda mais quatro títulos. Em 1979, emprestado ao Coritiba, foi campeão paranaense. Em 1983, emprestado ao Grêmio, conquistou no mesmo ano os maiores títulos da história do clube. Ainda passou pelo Náutico, onde também foi campeão estadual. Ao todo, foram 17 títulos como jogador. Depois foi treinador de goleiros (do próprio Grêmio) e atualmente é técnico.

Em 1992, interinamente, foi vice-campeão gaúcho pelo Grêmio. Já passou pelo futebol de Rondônia, Sapucaiense e hoje prepara o Santo Ângelo para a estreia na Segundona. Na vida pública iniciou carreira política na década de 1990, tendo sido eleito vereador em Porto Alegre, mas abandonou o mandato na metade para ensinar futebol no Japão, onde viveu por oito anos.

Mantendo a vasta e característica cabeleira, hoje branca pelo tempo, interrompi a conversa de Mazzaropi, então técnico do Guarani de Venâncio Aires, com o amigo e ex-colega de Grêmio, então treinador do Passo Fundo, Celso Freitas, para entrevistá-lo à beira do gramado do Vermelhão da Serra, pouco minutos antes do confronto entre as duas equipes pela Copa Lupi Martins de 2008.

Com a fala mansa e o típico sotaque carioca, escondia a preocupação pelos quatro meses de salários atrasados no Guarani. Na oportunidade, o Tricolor venceu o adversário, mas os dois clubes tiveram o mesmo destino para a próxima temporada: o fechamento do departamento de futebol profissional.

Confira o rápido bate-papo com o ídolo gremista sobre paixões, recordes, goleiros e técnicos.

O Nacional - Mazzaropi, responde rápido: Grêmio ou Vasco?
Mazzaropi - Os dois. Quer dizer, um pouco mais gremista. Eu me criei dentro do Vasco da Gama, foram 15 anos lá, eu seria muito injusto se não tivesse um carinho pelo clube. Ganhamos duas taças Guanabara, dois campeonatos cariocas, um Brasileiro. Foi uma vida toda. Fui para lá com 16 anos, foram quatro anos nas categorias de base e 11 na equipe principal. Tenho realmente um apreço muito grande pelo Vasco. Triste também pelo momento que o time vive e por aquele que hoje comanda o clube, o Roberto Dinamite, fomos criados juntos, e o treinador (ex) que é o Renato, outro grande amigo que tenho e uma pessoa que eu admiro muito.
A passagem pelo Grêmio marcou muito pelos títulos que conquistei no clube. Nas duas primeiras grandes conquistas do time, tive o prazer e a satisfação de fazer parte daquele grupo vitorioso. Então tudo isso marca. Além do carinho e respeito que tenho pelo Grêmio e pela torcida, que é muito grande.


ON - No último Brasileiro, o goleiro Rogério Ceni (São Paulo) ficou a 400 minutos da sua marca, de 1.816 minutos de invencibilidade, em 1977. É possível que algum goleiro bata essa marca hoje?
Mazzaropi - Eu acho que sim. Há apenas cinco anos fiquei sabendo desse recorde. Tinha consciência do tempo que fiquei sem tomar gol, mas não imaginava que isso fosse um recorde. E até hoje ainda persiste. Em 2006, dois meses antes da Copa do Mundo, eu fui para a Alemanha receber um prêmio por essa marca. Mas eu nunca me preocupei com ela e talvez seja por isso é que eu tenha passado esse tempo todo sem tomar gol. Meu negócio era fazer o meu trabalho da melhor maneira possível. Estava preparado para tomar, ou não, gol. Mas aconteceu, e isso marca a carreira do atleta. Como eu cheguei a essa marca, outros podem chegar. Até torço para que outros a alcancem.

ON - Vida de goleiro não é fácil. De técnico também. Qual é a mais difícil?
Mazzaropi - Acho que as duas (risos). Mas a de treinador é ainda pior por que você fica aqui, de fora. Lá dentro você vive o jogo, tem como você ter uma interferência mais direta. O goleiro é um pouco melhor nesse aspecto. Aqui você tem que passar para os jogadores e, às vezes, eles não conseguem escutar por causa do envolvimento com a partida. E lá dentro você tem como tomar a iniciativa.

ON - Dentre a atual geração, que goleiros você destaca?
Mazzaropi - Gosto muito do Gomes [Tottenham Hotspur, da Inglaterra], do Rogério Ceni [São Paulo], do Fábio [Cruzeiro], o Victor [Grêmio] tem se apresentado muito bem. São jovens que estão despontando. Júlio César [Internazionale, da Itália] está muito bem. Eu acho que o Brasil está muito bem servido. Sou de uma época que não existia a figura do treinador de goleiros. Você aprendia por você mesmo. Você é que tinha que buscar treinamento, pedir a alguém para ajudar. Eu fui ter treinador de goleiros no final da carreira, no Grêmio. Então você tinha alguns vícios que às vezes prejudicavam. Hoje, depois que foi instituído o treinador de goleiros, os brasileiros evoluíram muito, e isso é ótimo para o futebol, para os goleiros e para os ex-goleiros, que tem mais um campo de trabalho.

ON - São poucos técnicos ex-goleiros: Raul [hoje comentarista], Leão [Atlético-MG], Geninho [Atlético-PR], Zetti [atualmente sem clube]. Porque apenas alguns se arriscam na casamata?
Mazzaropi - Acho que é opção de cada um. Eu tracei minha vida após encerrar minha carreira como atleta, na qual eu trabalharia por um período como treinador de goleiros, cumprida essa etapa, depois iniciaria como técnico. Como todo começo em qualquer atividade é difícil. Mas sou um cara que tem muita tranquilidade, muita paciência, acho que as coisas acontecem na hora que tem que acontecer. Não forço ou precipito a mudança. Ela vem ao natural porque acho que é o processo e a forma que você tem que encarar.

ON - Quem sabe treinar Grêmio [voltar a] ou Vasco um dia?
Mazzaropi - É o pensamento de todos e eu não fujo à regra. A gente vai fazendo um trabalho, procurando crescer gradativamente. Se tiver que acontecer, na hora certa, vai acontecer. Aquilo que é nosso, ninguém vai nos tirar. Mas tudo tem o seu momento, a sua hora.

(Fotos: Paulo Roberto D'Agustini/ON e Divulgação)

No Vasco, concentrado, em 1977, e...

... No Grêmio, festejando, em 1983


Entrevista publicada na edição de O Nacional dos dias 24 e 25 de janeiro de 2009

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